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As
bibliotecas servindo ao ensino superior
encontram-se em uma encruzilhada difícil,
mas prenhe de novos caminhos. É bem
conhecido o aumento exponencial de livros
publicados e títulos de periódicos
científicos e semicientíficos. Ou seja, ter
uma boa biblioteca é uma aventura cada vez
mais cara.
Ao mesmo tempo, de duas décadas para cá,
praticamente não aumentaram os recursos financeiros das bibliotecas públicas.
As
privadas, tendo de viver do que pagam seus
alunos, encontram limitações financeiras ainda
mais graves. Com o acirramento da concorrência,
foram-se os dias em que o ensino superior
privado era muito lucrativo. A equação é
simples, para comprar mais livros teriam de
cobrar mais dos alunos, já que não há mais tanto
lucro para financiar tais gastos. Portanto, com
que recursos comprar livros?
Os alunos brasileiros não têm
hábito de freqüentar bibliotecas e, ainda mais
grave, não têm o hábito de ler. Fecha-se aqui o
círculo vicioso. Ainda que houvesse recursos
para a expansão das bibliotecas, plenamente
justificada pela necessidade de dar acesso a
alunos e professores ao mundo do saber
acumulado, isso seria um enorme gasto com poucos
benefícios, dada a falta de uso.
Na verdade, vivemos com poucos
gastos e pouca demanda. Isso não seria
preocupante se não soubéssemos muito bem da
impossibilidade de ter uma educação de qualidade
sem a presença íntima das bibliotecas.
Se especularmos sobre as saídas
para o dilema, há duas direções óbvias: Não há
como escapar da necessidade de obter mais
resultados com menos recursos. Ao mesmo tempo, é
preciso criar nos alunos o hábito de freqüentar
e usar as bibliotecas. Mas antes de entrar nas
soluções, vale a pena esmiuçar melhor as funções
de uma biblioteca.
Para que serve uma biblioteca de
ensino superior?
Deve haver muitas maneiras de
segmentar as funções de uma biblioteca. Para
nossos objetivos, podemos distinguir três
grandes categorias: a biblioteca de pesquisa, a
biblioteca de referência e a biblioteca para
oferecer aos alunos as leituras indicadas. Cada
uma dessas bibliotecas tem funções e problemas
diferentes.
A biblioteca de pesquisa
Falar em bibliotecas no ensino
superior evoca imediatamente a idéia da
biblioteca de pesquisa, pelas mesmas razões que
falamos em universidade, quando estamos
realmente falando do ensino superior, onde a
pesquisa é para poucas instituições.
Na verdade, uma biblioteca que
realmente dê respaldo à pesquisa publicável em
periódicos sérios é muito cara. Como prever os
livros que os pesquisadores precisariam para
fazer corretamente seu trabalho? A cada ano,
somente no Brasil, há quase 50 mil novos
títulos. Vários milhares deles são técnicos ou
científicos, sendo candidatos a compras por
bibliotecas das IES. Isso é mais do que o acervo
total das bibliotecas da maioria das IES. Há
áreas em que os livros são menos importantes em
função de a comunicação científica ocorrer por
artigos científicos publicados em periódicos,
cujas assinaturas são também muito caras. Não
tem fim o número de periódicos que seriam
desejáveis ou imprescindíveis. O portal da Capes
vem crescendo em quantidade de títulos e já anda
pela casa dos 9 mil. Somente no Brasil,
publicam-se muitas centenas de periódicos
científicos.
Uma instituição privada, cujos
custos têm de ser arcados pelas mensalidades dos
alunos, não tem a mais remota condição de ter
uma biblioteca desse calibre, fornecendo massa
crítica para a pesquisa em todas as áreas em que
oferece cursos. Naturalmente, algumas
universidades privadas de certo porte podem usar
seus recursos para concentrar os acervos de sua
biblioteca em algumas poucas áreas em que têm
alguma pesquisa. Sendo assim, pelas melhores
razões, os muitos alunos das áreas sem pesquisa
financiam os acervos dos grupos de
pós-graduação, em que pode haver alguma
pesquisa. As implicações de eqüidade para as
políticas do Ministério da Educação (MEC),
tentando forçar a pesquisa no ensino privado,
não são das mais saudáveis.
Gostemos ou não, para a maioria
dos cursos e das instituições, a pesquisa é
imaginária. Ou é um sonho impossível ou é uma
farsa para agradar o MEC. Somente em dez
universidades há pelo menos uma publicação
significativa por professor/ano.
Sabemos bem que, mesmo nos
países mais prósperos, a proporção de
instituições que fazem pesquisa publicável
não passa de dois a três por cento do total.
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Todavia, há uma outra
pesquisa que interessa, e muito. É a
pesquisa feita pelos alunos. Não é para ser
publicada, não é para revolucionar a
ciência. É o aprendizado do método
científico que só é possível pela prática da
pesquisa, mesmo que seja curta, simples e
despretensiosa.
Para
a maioria avassaladora das IES, é preciso
pensar na biblioteca que dá apoio à pesquisa
dos alunos. Bases de dados para as pesquisas
empíricas, periódicos menos incompreensíveis
e livros clássicos da área são as primeiras
sugestões que vêm à mente. Obviamente, o
planejamento das compras deve ser feito em
comum acordo com os professores que estão
engajados em orientar trabalhos práticos de
alunos. Se a pesquisa dos alunos for
corretamente direcionada para alguns poucos
temas, é possível criar uma biblioteca
minimamente decente nas áreas escolhidas.
A biblioteca de referência
Talvez, os bibliotecários
tenham uma definição melhor, mas a
biblioteca de referência é o acervo que
atende a leitores de todas as profissões e
variados níveis de educação. Classicamente,
são os dicionários, enciclopédias, jornais e
revistas de interesse geral. Some-se a isso
os clássicos e os livros imperdíveis. E há
também os livros e revistas no campo do
“faça você mesmo”. Toda biblioteca deve ter
um bom estoque de materiais desse tipo. Para
alunos e professores, é uma janela para o
mundo, sobretudo, fora de suas áreas de
especialização ou profissionalização.
Devemos
pensar que esse acervo deve cobrir do mais
atraente ao mais hermético. O mais fácil, e
até mais vulgar, tem o papel de levar o
estudante para a biblioteca. Adquirido o
hábito, leituras mais substanciais vão
aparecer. Perguntei a uma bibliotecária: tem
assinatura da Playboy? Por que não? Se isso
leva o aluno a freqüentar a biblioteca, está
dado o primeiro passo para conquistá-lo. Por
outro lado, é preciso não gastar recursos
com livros cuja probabilidade de serem lidos
é ínfima. A biblioteca não é para
impressionar o MEC ou quem quer que seja,
mas para ser consultada.
A biblioteca de leituras
obrigatórias
Todo curso universitário tem
uma lista de leituras obrigatórias.
Idealmente, os alunos deveriam comprar os
livros-textos indicados em cada disciplina.
Mas há cursos com mais de um livro e outros
em que as leituras estão esparramadas em
múltiplas fontes. Na prática, poucos podem
dispor dos recursos necessários para as
compras indicadas. Uma estimativa com poucas
pretensões de exatidão indica um valor de
800 reais por ano.
Por essa razão, o MEC obriga
à biblioteca comprar um livro para cada dez
alunos. Como os livros ou capítulos de
livros são necessários exatamente no mesmo
momento, a obrigação criada pelo MEC de
haver um livro para cada dez alunos é
ridiculamente inadequada. Mas no caso das
particulares, comprar mais livros só pode
ser feito, passando a conta para os alunos,
pois não há outras fontes para pagar tais
custos.
Na prática, esse é o mais angustiante
problema de biblioteca encontrado pelo
ensino privado, já que a pesquisa é uma
quimera distante. Os alunos precisam ler
certos materiais, não têm recursos para
comprá-los e não é possível financiar um
número suficiente de exemplares na
biblioteca.
As bibliotecas americanas
usam o chamado sistema de reserva, pelo qual
os livros indicados somente podem ser lidos
na própria biblioteca e são emprestados por
um número limitado de horas.
A alternativa de fotocopiar
os materiais tem sido abundantemente usada.
De fato, é graças a ela que boa parte dos
alunos garantem um mínimo de leituras. Mas
há restrições legais às cópias, diante da
legislação de propriedade intelectual. Na
verdade, esse é um campo de batalha e há
grande ambigüidade nessa legislação,
merecendo a detida atenção daqueles que
operam IES ou que pensam em ensino superior.
Mas adiante, voltaremos a este mesmo
problema, apresentando possíveis saídas.
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