Bibliotecas sem Livros?


Autor:
Cláudio de Moura Castro
Fonte: Revista Aprender Virtual

Acesso Rápido aos Tópicos:
Início - Para que serve uma biblioteca de ensino superior? - A biblioteca de pesquisa
A biblioteca de referência - A biblioteca de leituras obrigatórias
Novas técnicas e novas tendências - A biblioteca multiuso e sedutora

Novas técnicas e novas tendências

Na presente seção, discutiremos maneiras de tornar a biblioteca mais efetiva e mais completa, sem que sejam necessários recursos financeiros exorbitantes que, de resto, não existem na maioria dos casos. Ou seja, aqui cuidamos da questão de como obter mais com menos recursos.

 

A revolução da informática e das telecomunicações não poderia passar ao largo das bibliotecas. E de fato, com a tecnologia já existente, escancaram-se novas portas, oferecendo soluções impensáveis há algum tempo. Mas com um pouquinho de inteligência e imaginação é possível fazer muito, mesmo sem qualquer uso de tecnologias modernas.

 

Por que uma biblioteca em uma dada cidade deveria comprar um mesmo livro que já está em uma outra biblioteca em uma mesma cidade (afora os títulos de leitura indicada nos cursos)? Uma política inteligente do MEC seria penalizar a biblioteca que comprasse livros de uso infreqüente, já disponíveis em outras bibliotecas. Igualmente, deveria penalizar as IES que não tivessem um sistema rápido e fluido de empréstimos interbibliotecas. E sem catálogos dos acervos on-line de todas as bibliotecas locais, permanecemos na idade da pedra.

 

O COMUT , pela sua simplicidade, trouxe uma pequena revolução no sistema de circulação de artigos científicos entre bibliotecas. Havendo começado com fotocópias, pagas com selos ou bônus servindo como moeda, passou para cartões de crédito e versões eletrônicas dos documentos copiados.

 

Um passo possível, sem qualquer tecnologia mais moderna, é a publicação de livros ou cadernos, reunindo em um só tomo todas as leituras de uma disciplina. No processo de preparar tais materiais, eliminam-se os capítulos que não são indicados, encurtando dramaticamente o número de páginas, sobretudo em disciplinas em que há muitas leituras soltas ou quando o livro-texto é enorme e somente algumas partes serão utilizadas. O problema desta solução é a dificuldade administrativa de negociar direitos autorais com muitas editoras e autores. A Xerox nos Estados Unidos lançou essa possibilidade, já faz vários anos. Mas no Brasil, ainda não conhecemos nada similar, apesar de alguns anúncios de iniciativas nessa linha.

 

Uma alternativa que proporciona um potencial incalculável de benefícios para os alunos mais pobres é oferecer todas as leituras em meio magnético, de tal forma que ele possa receber ou gerar seu próprio CD, com todas as leituras do curso. O custo de um CD é desprezível e praticamente todos os alunos de um curso superior sabem como copiar arquivos. O problema aqui é a legislação de propriedade intelectual. Esta operação parece estar em uma zona cinzenta.

 

Mas ao se revelar esta alternativa possível, resolve-se de maneira dramática um problema crítico do ensino superior. Ler pelo monitor pode não ser uma atividade tão amena como fazê-lo em papel. Mas pode-se dizer o mesmo do transporte coletivo. Todos gostariam de ter seu próprio carro, mas o ônibus permite ir a lugares onde precisamos ir. O CD do aluno é uma solução paliativa, mas é amplamente melhor do que as alternativas possíveis que estão por aí.

 

A biblioteca virtual e os recursos entrópicos da internet são a grande e mais espetacular revolução. Instalou-se o caos da WWW, que oferece uma riqueza extraordinária de informações e cacofonias. O lixo da web não pára de aumentar. Mais devagar ou mais depressa, o número de leituras sérias, disponíveis eletronicamente também aumenta.

 

O acesso à internet já está amplamente difundido dentre alunos de cursos superiores – seja por linha discada ou banda larga. De fato, 92% dos alunos dos cursos superiores privados têm acesso à internet (na facul-dade, no trabalho ou em casa). Ou seja, o computador difunde-se mais do que o livro.

 

Para trabalhos de alunos, mesmo em níveis pré-universitários, a internet já provocou uma grande revolução. Infelizmente, há um passivo temível. Antes da internet, o aluno tinha que copiar o que encontrava, entendendo ou não.

 

Hoje, muitos apresentam trabalhos com textos que sequer leram. Mas o potencial está aí e impõe ao professor um desafio de propor trabalhos que não possam ser feitos pela mera transcrição de textos encontrados na internet. No fundo, isso é um lado muito positivo.

Para assuntos mais sérios, as bibliotecas on-line revelam-se uma grande solução para as leituras da maioria dos alunos que não podem comprar livros. Ainda estamos muito longe de ter um acervo que cubra as leituras que os alunos devem fazer em seus cursos. Na verdade, os livros mais recentes estão sendo vendidos – por bom preço – e não seria viável tê-los on-line, a não ser que se encontrem maneiras de remunerar os autores. Mas não há dúvidas de que, dentre as políticas governamentais, resolver as pendências de direitos autorais deveria ser uma grande prioridade.

 

Um livro de ensino médio ou fundamental, pré-selecionado pelo MEC, pode ter tiragens de muitas dezenas de milhares de exemplares. Comprar seus direitos autorais e torná-los domínio público pode ser caro. Mas as tiragens dos livros de ensino superior são muito mais modestas e os proventos dos autores ridiculamente limitados. Não são tais rendas que motivam autores a escrever.

 

Ao mesmo tempo, negociar a venda de direitos de reprodução eletrônica de livros e artigos é algo que está acima das possibilidades de qualquer IES, individualmente, pelo tempo necessário e pela inexperiência. Estamos, portanto, diante de uma dimensão do ensino superior em que o poder público poderia gerar políticas e iniciativas de grandes conseqüências.

 

Há que notar uma diferença importante nas bibliotecas virtuais. Algumas são de acesso livre. Qualquer leitor pode entrar no Google e ter acesso ao que lá está. Não são poucas as fontes abertas de informações e cada vez há mais bibliotecas virtuais no Brasil. Por exemplo, há um movimento de colocar on-line os clássicos da literatura e da ciência brasileira. São publicações com copyright vencido e, às vezes, difíceis de encontrar em papel.

 

Mas para as atividades profissionais de pesquisa, as bases de dados são fechadas e o acesso a elas pode ser muito caro. Por exemplo, o acesso à coleção de periódicos de psicologia custa mais de cinco mil dólares por ano, dependendo do número de alunos da instituição. É ilustrativo o caso da Capes que paga vários milhões de dólares por ano para acesso à base de periódicos da Elsevier. Como a CAPES não dá às instituições privadas direito de acesso, os custos estão totalmente fora do alcance delas.

 

Finalmente, há um conceito curioso, que jamais vi apresentado desta forma. Trata-se da idéia de uma “biblioteca potencial”. Não é possível prever quais livros serão necessários para conduzir uma pesquisa sobre um tema ainda não definido. Seja para permitir uma pesquisa convencional com fins de publicação, seja uma pesquisa de alunos, as bibliotecas, públicas e privadas, são pobres e desatualizadas. Mas mesmo que tivessem recursos, antecipar o que o pesquisador vai precisar é um tiro no escuro. Só por acaso se acerta o alvo.

 

Por que não inverter a ordem e só comprar o livro quando isso se mostrar necessário, diante da demanda de algum professor ou aluno? A objeção clássica é que o ciclo de compra, envio e catalogação é tão grande que quando chega o livro, já não é mais necessário. Felizmente, a Amazon.com mudou isso, com os livros chegando no dia seguinte. É perfeitamente possível criar um mecanismo pelo qual um professor possa pedir livros da Amazon ou do Submarino no mesmo dia, quando houver necessidade. Ou seja, o livro pode estar em suas mãos em poucos dias, mesmo no caso de vir de outro país. Obviamente, a biblioteca precisa fazer sua parte, isto é, catalogar (ou registrar provisoriamente) no mesmo instante em que chegar o livro.

 

Há muito que podemos fazer para tornar as bibliotecas mais dinâmicas, mais eficientes e mais baratas. As tecnologias que aparecem todos os dias têm um grande potencial. Mas diante da inação e da falta de imaginação que se vê por todos os lados, na prática, o centro de gravidade da biblioteca é a máquina de xérox. Em que pesem os custos, o trabalho, as filas e as inconveniências, a biblioteca não passa muito de um local onde se fazem fotocópias. É um fim melancólico. Mas não precisaria ser assim.



 

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