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Novas técnicas e novas tendências
Na presente seção, discutiremos
maneiras de tornar a biblioteca mais efetiva e
mais completa, sem que sejam necessários
recursos financeiros exorbitantes que, de resto,
não existem na maioria dos casos. Ou seja, aqui
cuidamos da questão de como obter mais com menos
recursos.
A revolução da informática e das
telecomunicações não poderia passar ao largo das
bibliotecas. E de fato, com a tecnologia já
existente, escancaram-se novas portas,
oferecendo soluções impensáveis há algum tempo.
Mas com um pouquinho de inteligência e
imaginação é possível fazer muito, mesmo sem
qualquer uso de tecnologias modernas.
Por que uma biblioteca em uma
dada cidade deveria comprar um mesmo livro que
já está em uma outra biblioteca em uma mesma
cidade (afora os títulos de leitura indicada nos
cursos)? Uma política inteligente do MEC seria
penalizar a biblioteca que comprasse livros de
uso infreqüente, já disponíveis em outras
bibliotecas. Igualmente, deveria penalizar as
IES que não tivessem um sistema rápido e fluido
de empréstimos interbibliotecas. E sem catálogos
dos acervos on-line de todas as bibliotecas
locais, permanecemos na idade da pedra.
O COMUT , pela sua simplicidade,
trouxe uma pequena revolução no sistema de
circulação de artigos científicos entre
bibliotecas. Havendo começado com fotocópias,
pagas com selos ou bônus servindo como moeda,
passou para cartões de crédito e versões
eletrônicas dos documentos copiados.
Um passo possível, sem qualquer tecnologia mais
moderna, é a publicação de livros ou cadernos,
reunindo em um só tomo todas as leituras de uma
disciplina. No processo de preparar tais
materiais, eliminam-se os capítulos que não são
indicados, encurtando dramaticamente o número de
páginas, sobretudo em disciplinas em que há
muitas leituras soltas ou quando o livro-texto é
enorme e somente algumas partes serão
utilizadas. O problema desta solução é a
dificuldade administrativa de negociar direitos
autorais com muitas editoras e autores. A Xerox
nos Estados Unidos lançou essa possibilidade, já
faz vários anos. Mas no Brasil, ainda não
conhecemos nada similar, apesar de alguns
anúncios de iniciativas nessa linha.
Uma alternativa que proporciona
um potencial incalculável de benefícios para os
alunos mais pobres é oferecer todas as leituras
em meio magnético, de tal forma que ele possa
receber ou gerar seu próprio CD, com todas as
leituras do curso. O custo de um CD é
desprezível e praticamente todos os alunos de um
curso superior sabem como copiar arquivos. O
problema aqui é a legislação de propriedade
intelectual. Esta operação parece estar em uma
zona cinzenta.
Mas ao se revelar esta
alternativa possível, resolve-se de maneira
dramática um problema crítico do ensino
superior. Ler pelo monitor pode não ser uma
atividade tão amena como fazê-lo em papel. Mas
pode-se dizer o mesmo do transporte coletivo.
Todos gostariam de ter seu próprio carro, mas o
ônibus permite ir a lugares onde precisamos ir.
O CD do aluno é uma solução paliativa, mas é
amplamente melhor do que as alternativas
possíveis que estão por aí.
A biblioteca virtual e os recursos entrópicos da
internet são a grande e mais espetacular
revolução. Instalou-se o caos da WWW, que
oferece uma riqueza extraordinária de
informações e cacofonias. O lixo da web não pára
de aumentar. Mais devagar ou mais depressa, o
número de leituras sérias, disponíveis
eletronicamente também aumenta.
O acesso à internet já está
amplamente
difundido
dentre alunos de cursos superiores – seja por
linha discada ou banda larga. De fato, 92% dos
alunos dos cursos superiores privados têm acesso
à internet (na facul-dade, no trabalho ou em
casa). Ou seja, o computador difunde-se mais do
que o livro.
Para trabalhos de alunos, mesmo
em níveis pré-universitários, a internet já
provocou uma grande revolução. Infelizmente, há
um passivo temível. Antes da internet, o aluno
tinha que copiar o que encontrava, entendendo ou
não.
Hoje, muitos apresentam
trabalhos com textos que sequer leram. Mas o
potencial está aí e impõe ao professor um
desafio de propor trabalhos que não possam
ser feitos pela mera transcrição de textos
encontrados na internet. No fundo, isso é um
lado muito positivo. |
Para assuntos mais sérios, as
bibliotecas on-line revelam-se uma grande
solução para as leituras da maioria dos
alunos que não podem comprar livros. Ainda
estamos muito longe de ter um acervo que
cubra as leituras que os alunos devem fazer
em seus cursos. Na verdade, os livros mais
recentes estão sendo vendidos – por bom
preço – e não seria viável tê-los on-line, a
não ser que se encontrem maneiras de
remunerar os autores. Mas não há dúvidas de
que, dentre as políticas governamentais,
resolver as pendências de direitos autorais
deveria ser uma grande prioridade.
Um livro de ensino médio ou
fundamental, pré-selecionado pelo MEC, pode
ter tiragens de muitas dezenas de milhares
de exemplares. Comprar seus direitos
autorais e torná-los domínio público pode
ser caro. Mas as tiragens dos livros de
ensino superior são muito mais modestas e os
proventos dos autores ridiculamente
limitados. Não são tais rendas que motivam
autores a escrever.
Ao mesmo tempo, negociar a
venda de direitos de reprodução eletrônica
de livros e artigos é algo que está acima
das possibilidades de qualquer IES,
individualmente, pelo tempo necessário e
pela inexperiência. Estamos, portanto,
diante de uma dimensão do ensino superior em
que o poder público poderia gerar políticas
e iniciativas de grandes conseqüências.
Há que notar uma diferença
importante nas bibliotecas virtuais. Algumas
são de acesso livre. Qualquer leitor pode
entrar no Google e ter acesso ao que lá
está. Não são poucas as fontes abertas de
informações e cada vez há mais bibliotecas
virtuais no Brasil. Por exemplo, há um
movimento de colocar on-line os clássicos da
literatura e da ciência brasileira. São
publicações com copyright vencido e, às
vezes, difíceis de encontrar em papel.
Mas para as atividades
profissionais de pesquisa, as bases de dados
são fechadas e o acesso a elas pode ser
muito caro. Por exemplo, o acesso à coleção
de periódicos de psicologia custa mais de
cinco mil dólares por ano, dependendo do
número de alunos da instituição. É
ilustrativo o caso da Capes que paga vários
milhões de dólares por ano para acesso à
base de periódicos da Elsevier. Como a CAPES
não dá às instituições privadas direito de
acesso, os custos estão totalmente fora do
alcance delas.
Finalmente, há um conceito
curioso, que jamais vi apresentado desta
forma. Trata-se da idéia de uma “biblioteca
potencial”. Não é possível prever quais
livros serão necessários para conduzir uma
pesquisa sobre um tema ainda não definido.
Seja para permitir uma pesquisa convencional
com fins de publicação, seja uma pesquisa de
alunos, as bibliotecas, públicas e privadas,
são pobres e desatualizadas. Mas mesmo que
tivessem recursos, antecipar o que o
pesquisador vai precisar é um tiro no
escuro. Só por acaso se acerta o alvo.
Por que não inverter a ordem
e só comprar o livro quando isso se mostrar
necessário, diante da demanda de algum
professor ou aluno? A objeção clássica é que
o ciclo de compra, envio e catalogação é tão
grande que quando chega o livro, já não é
mais necessário. Felizmente, a Amazon.com
mudou isso, com os livros chegando no dia
seguinte. É perfeitamente possível criar um
mecanismo pelo qual um professor possa pedir
livros da Amazon ou do Submarino no mesmo
dia, quando houver necessidade. Ou seja, o
livro pode estar em suas mãos em poucos
dias, mesmo no caso de vir de outro país.
Obviamente, a biblioteca precisa fazer sua
parte, isto é, catalogar (ou registrar
provisoriamente) no mesmo instante em que
chegar o livro.
Há muito que podemos fazer
para tornar as bibliotecas mais dinâmicas,
mais eficientes e mais baratas. As
tecnologias que aparecem todos os dias têm
um grande potencial. Mas diante da inação e
da falta de imaginação que se vê por todos
os lados, na prática, o centro de gravidade
da biblioteca é a máquina de xérox. Em que
pesem os custos, o trabalho, as filas e as
inconveniências, a biblioteca não passa
muito de um local onde se fazem fotocópias.
É um fim melancólico. Mas não precisaria ser
assim.
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