Bibliotecas sem Livros?


Autor:
Cláudio de Moura Castro
Fonte: Revista Aprender Virtual

Acesso Rápido aos Tópicos:
Início - Para que serve uma biblioteca de ensino superior? - A biblioteca de pesquisa
A biblioteca de referência - A biblioteca de leituras obrigatórias
Novas técnicas e novas tendências - A biblioteca multiuso e sedutora

A biblioteca multiuso e sedutora

Na seção anterior, tentamos mostrar que há um grande número de possibilidades de obter mais eficiência da biblioteca, de conseguir mais com menos recursos. Aqui, tomamos o outro lado da questão: como atrair os alunos, para que possam ser seduzidos pelos livros? Afinal, se não conseguirmos fazer os alunos lerem, para quê bibliotecas?

 

A biblioteca tradicional é um lugar aonde se vai para retirar livros e materiais de leitura. Para alguns poucos, oferece também espaços convenientes para a leitura. Com o tem-po, as bibliotecas foram ampliando suas funções. Em primeiro lugar, passam a incluir em seu acervo leituras mais leves, como revistas de interesse geral e jornais. Isso aumenta exponencial-mente o interesse dos alunos em visitá-las. Quando nada, economizam para o aluno o dinheiro do jornal ou da Veja. Nesse processo, ajudam a criar o hábito de freqüentá-las.

 

O aparecimento de apresentações musicais nas bibliotecas não é recente, pelo menos nos Estados Unidos. É mais uma razão para as visitas e para criar o hábito, tanto de ouvir música como de freqüentar a biblioteca.

 

As áreas de trabalho vão progressivamente se diversificando. Em alguns lugares, que haja um silêncio sepulcral. Em outros, que haja espaço para conversar, na esperança de que algumas conversas sejam sobre estudos.

 

Os computadores migraram para as bibliotecas faz muito tempo. Essa é uma das razões mais potentes para atrair alunos, mesmo que seja para verificar e-mails ou dar uma olhada furtiva em sites pornográficos. Mas o computador é a ferramenta de pesquisa por excelência. Portanto, com ele a biblioteca adquire uma renovada vocação para a pesquisa.

 

Há universidades nos Estados Unidos afirmando ser a nova geração de bibliotecas o local onde os alunos vão aprender a fazer pesquisa. Não deixam por menos. É lá que se estabelece o contato com os materiais escritos ou com as bases de dados eletrônicas. É o ponto de partida da pesquisa.

 

Obviamente, a contrapartida é que a equipe da biblioteca passa de guardadora de livros a tutores em métodos de pesquisa. É uma mudança e tanto, do ponto de vista de sua preparação prévia. Mas é uma mudança correta.

Finalmente, há duas outras mudanças que valem registrar, pelo que representam. A primeira foi popularizada pela livraria Barnes & Noble. Trata-se da oferta de “comes e bebes” em suas lojas. O hábito difunde-se e, mesmo no Brasil, muitas livrarias já têm seus bares ou lanchonetes. O salto da livraria para a biblioteca não requer muita imaginação. Se sucos e salgadinhos vendem mais livros, parece razoável supor que tornariam também os espaços das bibliotecas mais atraentes e confortáveis.

 

Para resumir, resolvido o problema do acervo, o principal desafio para a biblioteca é atrair alunos. É assim que deve ser, pois adquirido o hábito, o freqüentador pode chegar a ler coisas mais substanciosas. Poderíamos pensar que a meta é fazer com que o aluno vá para a biblioteca sem pensar e sem questionar o porquê de estar indo. É preciso criar o reflexo condicionado de ir para a biblioteca em todos os momentos de folga. Uma vez lá, as coisas acontecem e as atividades mais educativas automaticamente aparecem.

 

Para isso, tudo tem de militar a favor. A arquitetura tem de ser agradável e acolhedora. A temperatura e a acústica também têm de colaborar. Esse não é um empecilho menor, pois a maioria dos arquitetos brasileiros não gosta de se preocupar com esses dois assuntos. A biblioteca precisa oferecer atividades para todos os momentos e para todos os perfis de alunos. Do ponto de vista do espaço, essa biblioteca é voraz, requerendo para funcionar um espaço bem maior do que as tradicionais. Ela se funde com a lanchonete, com as áreas de convivência.

E os livros? Que livros? Caminhamos para bibliotecas sem livros? Uma grande escola americana, a Universidade do Texas, ousou dar esse passo. Levou para outras bibliotecas ou para outros locais quase todos os seus livros. A biblioteca virou tudo, menos depósito de livros. É um exemplo que exagera as tendências observadas hoje. É bobagem perder tempo especulando se a biblioteca do futuro não terá livros. Mas cabe constatar que, seja para trazer alunos mais para perto dos livros, seja pelo aparecimento espontâneo de outras funções para a biblioteca, o fato é que os livros se tornam uma alternativa, dentre inúmeras outras atividades e funções que ganham mais visibilidade.

 

Como sugere a presente nota, há muito a ser feito, há muito a ousar. Mas é inescapável o imperativo de transformar a biblioteca e transformar os alunos em leitores e freqüentadores dessa instituição mutante.
 

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