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A biblioteca multiuso e sedutora
Na seção anterior, tentamos
mostrar que há um grande número de
possibilidades de obter mais eficiência da
biblioteca, de conseguir mais com menos
recursos. Aqui, tomamos o outro lado da questão:
como atrair os alunos, para que possam ser
seduzidos pelos livros? Afinal, se não
conseguirmos fazer os alunos lerem, para quê
bibliotecas?
A biblioteca tradicional é um
lugar
aonde se vai para retirar livros e materiais de
leitura. Para alguns poucos, oferece também
espaços convenientes para a leitura. Com o
tem-po, as bibliotecas foram ampliando suas
funções. Em primeiro lugar, passam a incluir em
seu acervo leituras mais leves, como revistas de
interesse geral e jornais. Isso aumenta
exponencial-mente o interesse dos alunos em
visitá-las. Quando nada, economizam para o aluno
o dinheiro do jornal ou da Veja. Nesse processo,
ajudam a criar o hábito de freqüentá-las.
O aparecimento de apresentações
musicais nas bibliotecas não é recente, pelo
menos nos Estados Unidos. É mais uma razão para
as visitas e para criar o hábito, tanto de ouvir
música como de freqüentar a biblioteca.
As áreas de trabalho vão
progressivamente se diversificando. Em alguns
lugares, que haja um silêncio sepulcral. Em
outros, que haja espaço para conversar, na
esperança de que algumas conversas sejam sobre
estudos.
Os computadores migraram para as
bibliotecas faz muito tempo. Essa é uma das
razões mais potentes para atrair alunos, mesmo
que seja para verificar e-mails ou dar uma
olhada furtiva em sites pornográficos. Mas o
computador é a ferramenta de pesquisa por
excelência. Portanto, com ele a biblioteca
adquire uma renovada vocação para a pesquisa.
Há universidades nos Estados
Unidos afirmando ser a nova geração de
bibliotecas o local onde os alunos vão aprender
a fazer pesquisa. Não deixam por menos. É lá que
se estabelece o contato com os materiais
escritos ou com as bases de dados eletrônicas. É
o ponto de partida da pesquisa.
Obviamente, a contrapartida é que
a equipe da biblioteca passa de guardadora de
livros a tutores em métodos de pesquisa. É uma
mudança e tanto, do ponto de vista de sua
preparação prévia. Mas é uma mudança correta. |
Finalmente, há duas outras
mudanças que valem registrar, pelo que
representam. A primeira foi popularizada
pela livraria Barnes & Noble. Trata-se da
oferta de “comes e bebes” em suas lojas. O
hábito difunde-se e, mesmo no Brasil, muitas
livrarias já têm seus bares ou lanchonetes.
O salto da livraria para a biblioteca não
requer muita imaginação. Se sucos e
salgadinhos vendem mais livros, parece
razoável supor que tornariam também os
espaços das bibliotecas mais atraentes e
confortáveis.
Para resumir, resolvido o
problema do acervo, o principal desafio para
a biblioteca é atrair alunos. É assim que
deve ser, pois adquirido o hábito, o
freqüentador pode chegar a ler coisas mais
substanciosas. Poderíamos pensar que a meta
é fazer com que o aluno vá para a biblioteca
sem pensar e sem questionar o porquê de
estar indo. É preciso criar o reflexo
condicionado de ir para a biblioteca em
todos os momentos de folga. Uma vez lá, as
coisas acontecem e as atividades mais
educativas automaticamente aparecem.
Para isso, tudo tem de
militar a favor. A arquitetura tem de ser
agradável e acolhedora. A temperatura e a
acústica também têm de colaborar. Esse não é
um empecilho menor, pois a maioria dos
arquitetos brasileiros não gosta de se
preocupar com esses dois assuntos. A
biblioteca precisa oferecer atividades para
todos os momentos e para todos os perfis de
alunos. Do ponto de vista do espaço, essa
biblioteca é voraz, requerendo para
funcionar um espaço bem maior do que as
tradicionais. Ela se funde com a lanchonete,
com as áreas de convivência.
E os livros? Que livros?
Caminhamos para bibliotecas sem livros? Uma
grande escola americana, a Universidade do
Texas, ousou dar esse passo. Levou para
outras bibliotecas ou para outros locais
quase todos os seus livros. A biblioteca
virou tudo, menos depósito de livros. É um
exemplo que exagera as tendências observadas
hoje. É bobagem perder tempo especulando se
a biblioteca do futuro não terá livros. Mas
cabe constatar que, seja para trazer alunos
mais para perto dos livros, seja pelo
aparecimento espontâneo de outras funções
para a biblioteca, o fato é que os livros se
tornam uma alternativa, dentre inúmeras
outras atividades e funções que ganham mais
visibilidade.
Como sugere a presente nota,
há muito a ser feito, há muito a ousar. Mas
é inescapável o imperativo de transformar a
biblioteca e transformar os alunos em
leitores e freqüentadores dessa instituição
mutante.
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