Concentradas
demais na pesquisa “científica”, escolas de
administração estão contratando professo-res
com limitada experiência na vida real e
formando alunos mal preparados para lidar
com questões complexas, inquantificáveis —
ou seja, tudo aquilo que a administração
requer.
Escolas de administração estão no
caminho errado. Durante anos, programas de MBA
desfrutaram de crescente respeitabilidade no
meio acadêmico e prestígio no mundo dos
negócios. Eram cada vez mais seletivos na
admissão, garantiam aos formandos uma
remuneração cada vez mais espetacular. Hoje,
porém, o MBA é duramente criticado: não
transmitiria habilidades úteis, não formaria
líderes, não inculcaria um comportamento ético,
não seria sequer capaz de instalar os formandos
em bons empregos. Tais críticas não partem só de
alunos, de empresas e da imprensa, mas de
reitores de escolas de gestão das mais renomadas
dos Estados Unidos, entre eles Dipak Jain, da
Kellogg School of Management, na Northwestern
University. Um crítico declarado, Henry
Mintzberg, professor da McGill University, diz
que o principal
vilão é o currículo irrelevante do MBA. Se
iniciativas de reforma em curso indicarem algo,
muitos reitores parecem concordar. Só que a
genuína reforma do currículo do MBA ainda nos
escapa. É que o currículo é o efeito, e não a
causa, dos males que afligem a moderna escola de
administração.
A
verdadeira causa da atual crise da educação
administrativa tem escopo muito maior e raízes
numa mudança drástica na cultura da faculdade de
administração. Nas últimas décadas, muitas das
grandes escolas de gestão adotaram um modelo de
excelência acadêmica que
é não só inadequado como, em última análise,
trará sua própria ruína. Em vez de avaliar o
próprio desempenho com base na competência
daqueles que forma ou na compreensão que tem o
corpo docente dos motores do desempenho de
empresas, a avaliação é quase toda fundada no
rigor da pesquisa científica. Esses cursos
adotaram um modelo de ciência que usa abstratas
análises financeiras e econômicas, regressões
estatísticas múltiplas e psicologia de
laboratório. Parte da pesquisa produzida é
ótima, mas como pouquíssimo dela é fundado em
práticas de negócios reais, o foco da educação
administrativa é cada vez mais circunscrito — e
menos relevante para quem atua na prática.
Esse modelo científico, como o chamamos, repousa
na falsa premissa de que a administração é uma
disciplina acadêmica como a química ou a
geologia. Ora, a administração é uma profissão,
assim como a medicina e o direito, e escolas de
gestão são escolas profissionais — ou deveriam
ser.
Tal como outras profissões, a administração
requer subsídios de várias disciplinas
acadêmicas.
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No caso da medicina, isso inclui
biologia, química e psicologia. Na
administração, matemática, economia,
psicologia, filosofia e sociologia. A
distinção entre profissão e disciplina
acadêmica é crucial. Nenhuma reforma
curricular terá sucesso enquanto o modelo
científico não for trocado por um modelo
mais adequado, fundado nos requisitos
especiais de uma profissão.
Antes de perguntar como deveria mudar a formação administrativa, é preciso
examinar sua evolução. A maioria das escolas
diz ter uma dupla missão: formar
profissionais e gerar conhecimento através
da pesquisa. Ao longo dos anos, o primeiro
objetivo teve primazia. Na primeira metade
do século 20, uma escola de gestão mais se
parecia com escolas profissionalizantes.
Nela, a maioria dos professores eram
sujeitos das antigas — contavam histórias de
guerra, davam conselhos da sabedoria popular
e vez por outra uma orientação prática.
Ainda lembramos quando a Sloan School of
Management, do MIT, era conhecida por MIT
School of Industrial Management, e o
professor de manufatura era o gerente da
fábrica da General Motors ali perto. Era uma
educação útil, mas nada abrangente e
profissional.
Em 1959, movidas em parte pela enorme
demanda por gestores profissionais na
efervescente economia do pós-guerra, as
fundações Ford e Carnegie soltaram duros
relatórios sobre o deplorável estado da
pesquisa e da teoria nas escolas de
negócios. Sugeriam saídas para dar a tais
escolas uma base acadêmica respeitável e
ofereciam bolsas para esse fim. Movidas pela
consciência e pelo dinheiro, universidades
de elite começaram a tratar a escola de
gestão com quase tanta seriedade quanto as
faculdades de direito. Ao fim do século 20,
quase todas as principais escolas de
negócios dos EUA — cerca de 25 instituições
de elite que ofereciam MBA e outra dezena
que lutava para chegar ao topo — tinham um
currículo de distinção acadêmica. Nesse
processo, o foco mudou. Agora, a meta da
maioria é fazer pesquisa científica. Voltar
ao paradigma da escola profissionalizante
seria um desastre. Só que é preciso um novo
equilíbrio entre rigor científico e
relevância prática.
Warren G. Bennis
detém os títulos de University Professor e Distinguished
Professor of Business Administration na
Marshall School of Business da University of
Southern California em Los Angeles, onde também preside o Leadership Institute.
James O’Toole é professor e pesquisador do Center for
Effective Organizations da USC e autor de
Creating the Good Life (Rodale, 2005).
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