Como a Escola de Administração Perdeu o Rumo


Autores: Warren G. Bennis e James O’Toole
 
Fonte:
Harvard Business Review

Parte 3 - Quem Consegue Estabilidade?

Essa nova ênfase na pesquisa científica em escolas de administração é, de modo geral, tácita. A maioria dos reitores nega publicamente sua existência, alegando que a instituição continua voltada à prática, embora com crescente consciência do valor da pesquisa rigorosa.
 

É preciso, aqui, observar o que fazem, não o que dizem, os líderes. Em escolas de negócios de elite, e nas emergentes que copiam suas práticas, o novo papel central da pesquisa científica é evidente em quase toda parte.

 

Basta ver os processos de contratação e efetivação de professores. Um reitor pode até dizer que deseja uma pesquisa voltada à prática, mas a escola premia a pesquisa científica destinada a agradar acadêmicos. Ao recrutar e promover quem publica em revistas especializadas nessa ou naquela disciplina, a escola de administração monta um corpo docente formado por indivíduos cuja principal aspiração profissional é uma carreira dedicada à ciência. Hoje é possível encontrar professores titulares de administração que jamais puseram os pés numa empresa de verdade, exceto como clientes.

 

Em muitas instituições, a rota da estabilidade, ou tenure, não inclui o trabalho em campo numa empresa. Entre jovens acadêmicos e seus orientadores, essa noção é explícita. Acadêmicos mais jovens são instados a evitar um trabalho excessivo com quem pratica a administração e a focar sua pesquisa em temas científicos estritos, pelo menos até quando avançados na busca da tenure (embora muito pesquisador, por escrúpulo, decida se inteirar da prática administrativa depois de conquistada a estabilidade, há poucos incentivos para tanto).

 

Sem dúvida é válido sugerir que os novos professores experimentem um pouco antes de embarcar numa árdua jornada intelectual, mas a pesquisa nas escolas de gestão está ficando estreita demais até para acadêmicos. Um fator tradicional em decisões sobre a concessão de tenure é a freqüência com que a obra do candidato é citada por outros acadêmicos.

Paradoxalmente, reitores e comitês de tenure nos informam que o número de citações de artigos redigidos por candidatos é drasticamente inferior do que há uma década — prova de que o trabalho de pesquisadores não tem importância sequer para os colegas.

Apesar disso, um professor de administração que publica estudos executados com rigor numa publicação altamente quantitativa como a Administrative Science Quarterly é considerado um astro, ao passo que o acadêmico que publica artigos nas páginas mais acessíveis de uma revista profissional — que tem muito mais probabilidade de influenciar práticas de negócios — corre o risco de ser preterido na efetivação.

 

Não conhecemos nenhum acadêmico de escola de gestão de elite com um bom histórico de publicações que tenha sido preterido numa tenure ou promoção por ser um professor fraco ou incapaz de ensinar bem em programas de educação executiva, nos quais o professor precisa ter experiência real na administração. Conhecemos, porém, o professor de finanças que teve o pedido de promoção negado quando o departamento concluiu que ele não era um acadêmico sério.


As provas contra ele incluíam sete artigos nesta revista e a melhor avaliação entre os professores do departamento. Ou seja, a meta oficial da educação administrativa pode continuar sendo formar profissionais e criar conhecimento por meio da pesquisa. Mas os meios tornam impossível atingir tal fim, pois a recompensa aponta para outra direção.

 

Warren G. Bennis detém os títulos de University Professor e Distinguished Professor of Business Administration na Marshall School of Business da University of Southern California em Los Angeles, onde também preside o Leadership Institute.
 

James O’Toole é professor e pesquisador do Center for Effective Organizations da USC e autor de Creating the Good Life (Rodale, 2005).

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