|
Para
equilibrar os objetivos do corpo docente com
as necessidades de outras clientelas, a
escola de administração poderia conferir o
que ocorre em outros cursos profissionais
como medicina, odontologia e direito.
O ensino
odontológico é um bom modelo, pois prepara o
aluno para prestar um serviço que requer
habilidades sofisticadas e também para
administrar um empreendimento concreto. A
pesquisa é fundamental para o ensino
odontológico, mas tem papel secundário em
relação à tarefa de formar profissionais
competentes e éticos.
Não será esse o
equilíbrio certo também para o ensino
administrativo? Em última análise, porém,
acreditamos que a escola de administração
colheria os maiores frutos se seguisse o exemplo
das mais inovadoras faculdades de direito. A
advocacia é uma atividade de base ampla que
busca subsídios em muitas das disciplinas
relevantes também para a gestão de empresas:
economia, psicologia, contabilidade, política,
filosofia, história, sociologia, línguas,
literatura e por aí vai. Mas o direito não
sucumbiu à inveja da física e ao cientificismo
que isso produz.
Em vez disso, tende
a premiar a excelência no ensino e em teses
pragmáticas. A pesquisa é um elemento importante
da prática e do ensino do direito, mas em sua
maioria é uma pesquisa aplicada, e sua validade
não depende de uma aura científica. Escolas de
direito reconhecem que um livro bem escrito ou
um artigo bem documentado, publicado numa
revista séria, voltada à prática, vale tanto
quanto um artigo quantitativo numa publicação
lida apenas por pesquisadores de ponta. Mesmo
assim, publicações científicas sem dúvida são
valorizadas nas avaliações de desempenho das
escolas de direito.
Um professor que use
o método científico para demonstrar que uma
convicção comum está errada, ou para quantificar
um insight contra-intuitivo, será recompensado.
Quem avalia o trabalho do corpo docente num
curso de direito faz perguntas como: Essa
pesquisa é importante? É útil? É interessante ou
original?
Foi bem explorada,
bem argumentada, bem concebida? Isso tudo soa
mais apropriado como critério de avaliação do
trabalho de professores de administração do que
os padrões de estreita definição do rigor
científico. É claro que nem toda escola de
administração sofre desse foco atenuado que a
nosso ver é tão alarmante. Reitores e corpo
docente em um punhado de instituições de elite
estão lutando de modo consciente para achar uma
maneira de realizar pesquisas rigorosas sem
abandonar sua missão profissional.
Na Harvard Business School, por
exemplo, a ênfase reiterada no estudo de caso
torna a prática uma parte integral do processo
educacional. E a Harvard cuida para que seu
currículo não deixe de evoluir ao levar o
desenvolvimento dos cursos em conta nas decisões
de tenure e promoção. |
Na mesma veia, Tom Campbell,
reitor da Haas School of Business da
University of California em Berkeley,
assumiu o compromisso público com o ensino e
a pesquisa nas áreas de negócios mais amplas
e menos tangíveis, que são o foco da revista
da escola, a California Management Review —
publicação influente, mas que não se valor
do rigor estabelecido para publicações
acadêmicas e científicas. Muitas escolas de
gestão de segunda linha, sobretudo as que
não residem em grandes universidades
voltadas à pesquisa, também mantiveram o
foco profissional (infelizmente, a qualidade
da educação oferecida em parte dessas
instituições faz lembrar as escolas técnicas
vocacionais).
Ficamos impressionados com o
reconhecimento, pela University of Dallas,
de que uma abordagem demasiado estreita à
formação administrativa pode ter tido um
papel nos escândalos da Tyco, Arthur
Andersen, WorldCom e Enron. É como explica
Thomas Lindsay, ex-diretor da universidade:
(...) a educação administrativa [nos Estados
Unidos] é voltada sobretudo ao treinamento
técnico.
É uma ironia, pois antes
mesmo da Enron, estudos indicavam que quando
um executivo falha — tanto financeira como
moralmente — raramente é por falta de
competência. Falha, antes, por falta de
habilidades interpessoais e sabedoria
prática, o que Aristóteles chamou de
prudência. Aristóteles ensinou que a
verdadeira liderança consiste na capacidade
de identificar e servir o bem comum.
Para tanto, é preciso muito
mais que treinamento técnico. É preciso uma
formação em raciocínio moral, que deve
incluir história, filosofia, literatura,
teologia e lógica (...) Lindsay calcula que
antes dos recentes escândalos, estudantes de
administração passavam “95% do tempo
aprendendo a calcular de modo a maximizar a
riqueza. Apenas 5% do tempo (...) é dedicado
a desenvolver sua capacidade moral”.
Para corrigir tal
desequilíbrio, a faculdade de administração
de Dallas incluiu no currículo disciplinas
humanas e iniciou uma série de exercícios
intelectuais e éticos.
Warren G. Bennis
detém os títulos
de University Professor e Distinguished
Professor of Business Administration na
Marshall School of Business da University of
Southern California em Los Angeles,
onde também
preside o Leadership Institute.
James O’Toole
é professor e pesquisador do Center for
Effective Organizations da USC e autor de
Creating the Good Life (Rodale, 2005).
|