Entrevista - Laurent Lapierre


Autor:
Andreas Müller
Fonte: Revista Amanhã

 



Professor de Liderança da Universidade de Montreal, Laurent Lapierre fulmina as expectativas de quem sonha com um MBA em Harvard e tenta copiar o estilo de liderança de ícones da gestão moderna.

O canadense Laurent Lapierre bem que poderia ser um crítico de arte. Ao longo da carreira, ele tem trabalhado nas maiores organizações culturais do Canadá. Já foi membro do conselho de orquestras sinfônicas, teatros e, atualmente, integra o board do Conselho de Artes do Canadá, que fomenta a produção artística por lá. Mas é em gestão que Lapierre transita com total desenvoltura. Professor de Liderança na Universidade de Montreal, Lapierre garante que liderar é uma arte – literalmente. Nesta entrevista, ele diz que todo líder tem um pouco de ator. Logo, imitar o estilo de grandes ícones da gestão, como Jack Welch, é uma armadilha. Em vez disso, devem-se estudar estilos e compor o “personagem” que desempenhará o papel de líder. Lapierre conversou com AMANHÃ durante sua visita à Escola Superior de Administração, Direito e Economia (Esade), em Porto Alegre. Confira:
 

Os jovens que acorrem em massa aos melhores MBAs no exterior estão desperdiçando dinheiro?

O primeiro ativo que você deve considerar quando pensa em estudos na área de negócio é você mesmo. Se você é um bom aprendiz, terá boa formação em Porto Alegre, em São Paulo e em todas as outras escolas de negócios daqui até Paris. Então esse é o primeiro esforço: condicionar-se para o aprendizado. Eu penso que é possível obter um ótimo treinamento mesmo em escolas ou MBAs que não são lá tão bons. Se você é um bom aprendiz, você lê bons livros, você busca o conhecimento e monitora o que é necessário aprender. É claro que viajar é importante, mas como experiência, e não para obter o melhor aprendizado. Viajar é essencial para alguém que precisa entender um pouco mais do que acontece lá fora. Mas não transforma ninguém em um profissional qualificado.

 

O que devem buscar, então, aqueles brasileiros que sonham com um MBA em Harvard ou na London Business School?

É claro que escolher uma boa escola no exterior ajuda a acelerar o processo de formação profissional. Se você consegue bancar seus estudos em uma escola de ótima reputação, como Harvard, bem, no mínimo você vai conquistar um diploma em Harvard. Isso dá credibilidade. Mas não adianta nada ir até Harvard se você não tiver condições de ser um bom aprendiz. Um diploma de Harvard diz muito pouco a respeito de um profissional que não é considerado bom no que faz. É sempre importante lembrar que, depois de obter o diploma em Harvard, em Stanford ou em qualquer outro grande MBA, essas escolas não farão mais nada por você. A partir daí, o que conta é você mesmo e a sua capacidade de fazer valer o seu conhecimento. Eu fiz meu MBA na HEC de Montreal. Eu poderia ter feito em Harvard, ou na HEC de Paris. Mas não foi preciso. Eu estava motivado e queria aprender.

 

Pode-se aprender lá fora respostas para problemas que enfrentamos aqui?

Não. Como eu disse, viajar é importante para se ter experiência ou para se ter aquilo que os executivos chamam hoje de “choque cultural”, algo muito valorizado hoje. Mas o choque cultural não ocorre somente quando a pessoa começa a cursar as aulas de Stanford, por exemplo. O choque também ocorre na volta. Passar uma temporada no exterior é ótimo como experiência. No entanto, se você cursar todo um MBA em Stanford, aprendendo o jeito “certo” de se administrar um negócio, e quiser voltar para o Brasil e implementar aqui o que aprendeu lá, você certamente irá falhar. Não é preciso ser inteligente para saber que o jeito de se fazer negócios em Porto Alegre é diferente do jeito de se fazer negócios na Califórnia.

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